ARTÍCULO ORIGINAL / ARTIGO ORIGINAL

Inquérito sorológico de toxoplasmose em
candidatos a transplante renal no Hospital
Ofir Loyola, Belém, Pará, Brasil

Serological survey of toxoplasmosis in renal transplant candidates at the
Ofir Loyola Hospital, Belém, Pará, Brasil

Ediclei Lima do Carmo1
Mônica Cristina de Moraes Silva1
Úrsula Andrezza Miralha Xavier2
Bianca Oliveira da Costa2
Marinete Marins Póvoa1


1 Pesquisador(a) da Seção de Parasitologia do Instituto Evandro Chagas/SVS.
2 Acadêmicas do Curso de Farmácia do Centro de Ensino Superior do Pará/CESUPA.


Rev Panam Infectol 2004;6(4):15-17.




Recibido en 30/08/2004.
Aceptado para publicación en 16/11/2004.
Resumo
Foi realizada investigação sorológica (2001) com o objetivo de determinar o índice de positividade para toxoplasmose em 82 pacientes com insuficiência renal crônica, de ambos os sexos, com idade entre 11 e 77 anos, submetidos a hemodiálise no setor de Nefrologia do Hospital Ofir Loyola e candidatos a transplante renal. O método sorológico utilizado foi o ensaio imunoenzimático (ELISA) indireto para detecção de IgG e o de captura para IgM. O índice de positividade observado para IgG foi de 82,93% (68/82). Não foram detectados anticorpos IgM no grupo de pacientes estudado. O indicativo de toxoplasmose pregressa, evidenciado pelo alto índice de positividade para IgG anti-T. gondii nos pacientes estudados, revela a importância do rastreamento sorológico para toxoplasmose nos procedimentos pré-transplantes, devido ao risco de reativação de cistos teciduais do parasito em decorrência da terapia imunossupressora.
Palavras-chave: Toxoplasmose, Positividade, Pacientes renais.

Abstract
It was performed a serological investigation (2001) in order to determine the toxoplasmosis positivity index in 82 cronic renal failure patients, of both sexes, age range of 11 to 77, submitted to haemodialysis treatment at the Nefrology Section of the Ofir loyola Hospital and candidates to renal transplant. The serological method used was the indirect immunoenzimatic assay (ELISA) for the detection of IgG and the capture for IgM. The positivity index observed for IgG was 82,93% (68/82). The IgM antibodies were not detected within this group of patients. The indicative of past toxoplasmosis, showed by the high index of IgG anti-T. gondii in the patients studied, point out the importance of the screening for toxoplasmosis in the pre-transplant procedures, due to the risk of the tissue T. gondii-cysts reactivation by the therapy with immunossupresors drugs.
Key words: Toxoplasmosis, Positivity, Renal patients.

Introdução
A toxoplasmose, importante protozoose causada pelo coccídio Toxoplasma gondii, apresenta alta soroprevalência mundial, alcançando índices de até 90%(1,2,3,4,5). Na região metropolitana de Belém, esse índice é de 77%(6). Na maioria dos casos, a toxoplasmose caracteriza-se como doença autolimitada e geralmente assintomática. Entretanto, em algumas situações pode se apresentar de forma grave, como observado em pacientes imunodeprimidos (portadores do HIV; linfomas e receptores de órgãos)(7,8,9). Nos receptores de órgãos sólidos (coração, fígado, rins, etc.) ou medula óssea, a toxoplasmose pode ser aguda e disseminada quando um paciente soronegativo recebe órgão de doadores com a infecção crônica ou pode se manifestar como reativação de infecção pregressa, como no caso de pacientes com sorologia positiva antes do transplante. Em ambos os casos, a imunodepressão decorrente da terapia específica pode ocasionar alteração no controle da infecção, permitindo o rompimento dos cistos teci-duais(10,11,12). A infecção pelo T. gondii após transplante renal é rara, existindo na literatura poucos relatos sobre toxoplasmose após transplante renal. Contudo, nos poucos registros existentes verifica-se um alto índice de mortalidade devido a essa infecção(11,12,13).

O objetivo do estudo foi realizar investigação sorológica para verificar o índice de positividade de toxoplasmose em candidatos a transplante renal no Hospital Ofir Loyola, Belém-Pará.

Material e Métodos
Amostra
Em 2001, foram avaliados 82 pacientes com insuficiência renal crônica, de ambos os sexos, com idade variando de 11 a 77 anos. Deste grupo, 2 pacientes já haviam realizado transplante renal e em virtude de problemas relacionados à rejeição do órgão, estes e os demais pacientes eram candidatos a transplante renal. Todos os pacientes estavam submetidos a tratamento por hemodiálise (3 seções/semana) no Setor de Nefrologia do Hospital Ofir Loyola, centro de referência em transplantes de órgãos no Estado do Pará, e não apresentavam sintomatologia sugestiva de toxoplasmose.

Após esclarecimento sobre os objetivos, procedimentos, riscos e benefícios do estudo, os pacientes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido de acordo com as recomendações do Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Evandro Chagas, que aprovou o mesmo (CEP/IEC-Nº 003/2002).

De cada paciente foi coletada amostra de sangue (10 ml de sangue venoso coletado em tubo a vácuo sem anticoagulante) para realização dos testes sorológicos. Os métodos empregados foram o ensaio imunoenzi-mático (ELISA) indireto para detecção de anticorpos IgG anti-T. gondii e de captura para detecção de IgM anti-T. gondii. Para a realização desses testes foram utilizados Kits comerciais (Platelia-Toxo IgG/IgM, Sanoffi Diagnostics/Pasteur). O protocolo dos testes e o cálculo dos valores de referência foram desenvolvidos segundo recomendações do fabricante.

Resultados
Dos pacientes estudados, 68 (82,93%) apresentaram positividade para a IgG. A partir da densidade ótica obtida, foi calculada a concentração desses anticorpos IgG em unidades internacionais por mililitro (UI/ml), que variou de 15 UI/ml a níveis maiores que 240 UI/ml (tabela 1). Em relação à pesquisa de IgM anti-T. gondii, nenhum paciente apresentou essa classe de anticorpos.



Discussão
Clinicamente, a toxoplasmose não é tão significativa em indivíduos imunocompetentes como o é em imunodeprimidos(8,9). Em pacientes que realizaram transplante renal, a toxoplasmose aguda sintomática é rara; entretanto, pode apresentar certa gravidade e elevada taxa de mortalidade, se não diagnosticada e tratada precocemente(14).

O estudo em questão procurou estabelecer o índice de positividade de anticorpos anti-T. gondii em um grupo de pacientes com insuficiência renal crônica, submetidos a procedimentos de hemodiálise, todos candidatos a transplante. Utilizando o teste ELISA, verificou-se que este índice alcançou a taxa de 82,93% para IgG. Índices elevados de soroprevalência de toxoplasmose também foram relatados em outras investigações soroepidemiológicas realizadas no Brasil e em outros países, porém, em diferentes grupos (grávidas, doadores de sangue e pacientes com SIDA)(16,17,18). Os resultados obtidos também estão de acordo com os dados sobre a soroprevalência geral de toxoplasmose em Belém (77,9%)(6). Estudo realizado em Kayseri (Turquia) em pacientes renais submetidos a hemodiálise demonstrou prevalência de 56,06% (97/173), com detecção de IgM em 3 casos(19). Já um estudo realizado no Egito, em pacientes com insuficiência renal crônica, submetidos ou não a procedimento de hemodiálise, demonstrou um índice de soroprevalência de 38,3%(20), valores inferiores aos obtidos no estudo em questão, porém de acordo com a baixa taxa de soroprevalência (57,9%) verificada naquele país(21).

A positividade e os níveis de IgG verificados nos pacientes estudados são indicativos de toxoplasmose crônica. Assim sendo, é possível ocorrer reativação da infecção, após o transplante, visto que, devido o uso das drogas imunossupressoras, o mecanismo de imunidade celular é alterado, interrompendo o equilíbrio entre parasito e hospedeiro, possibilitando a reativação da infecção devido à ruptura dos cistos, o que pode ocasionar quadro grave de toxoplasmose(14). Candidatos a transplante renal que apresentam positividade para IgG devem ser acompanhados periodicamente após o transplante por testes sorológicos. Quanto aos pacientes que foram soronegativos para IgG, nova avaliação sorológica deve ser realizada antes do transplante conjuntamente com o possível doador. No caso do doador ser soropositivo para toxoplasmose, o paciente soronegativo deverá ser submetido a testes sorológicos pós-transplante, para detectar possível soroconversão. No estudo em questão, nenhum paciente apresentou anticorpos IgM, caracterizando assim a au-sência de toxoplasmose aguda no grupo estudado.

Apesar do número de registros sobre toxoplasmose em receptores de rins ser limitado, é bem provável que a implementação de novas drogas na terapia imunossupressora aumente a incidência de toxoplasmose em transplantados renais(15). Assim, é de fundamental importância estabelecer o perfil sorológico do receptor e doador antes do procedimento de transplante, pois o diagnóstico e o tratamento precoce da toxoplasmose evitam o desenvolvimento de quadros clínicos severos, algumas vezes fatais(13,15).

Agradecimentos
Aos médicos do Hospital Ofir Loyola: Dr. João Saraiva, Dra. Cristina, Dra. Silvia Cruz, Enfa. Viviane Ferreira do Hospital Ofir Loyola, aos Técnicos do Laboratório de Toxoplasmose do EC/SVC e ao apoio financeiro do convênio FUNTEC-SECTAM (Nº 079/01).

Referencias
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Correspondência:
Dr. Ediclei Lima do Carmo
Instituto Evandro Chagas/Seção de Parasitologia
(Programa de Toxoplasmose).
Rod. BR 316, Km 7, s/n. Bairro Levilândia,
CEP 67030-000 - Ananindeua - Pará - Brasil
e-mail: edicleicarmo@iec.pa.gov.br