PUNTO DE VISTA / PONTO DE VISTA
Aids 2007: os novos dados, no Brasil e no mundo

Aids 2007: the new data, in Brazil and the world
Hélio Vasconcellos Lopes*
*Coordenador do Programa Municipal DST/AIDS/Hepatites da Secretaria de Saúde de Santos.
Professor Titular de Infectologia da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC.

Rev Panam Infectol 2007;9(4):65-66.

Conflicto de intereses: ninguno

Recibido en 27/11/2007.
Aceptado para publicación en 3/12/2007.
A recente publicação da UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids) e OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a epidemia de Aids (Aids epidemic update, December 2007) revela substanciais mudanças nas estimativas quanto ao número de indivíduos vivendo com Aids no mundo. A explicação, para estes novos dados, é que foi efetuada uma alteração na metodologia previamente adotada, sendo que 70% dessas mudanças ocorreram predominantemente em seis países: na Índia (principalmente) e em mais cinco países da África subsaariana.

O número de pessoas vivendo com HIV em 2007 é estimado em 33,2 milhões (em 2006 eram 39,5 milhões), portanto havendo uma redução de 16%. Entre os infectados adultos, exatamente a metade refere-se ao sexo feminino.

O número de novos casos - adultos e crianças infectados durante o ano de 2007 - foi estimado em 2,5 milhões, também abaixo dos dados anteriores. Cerca de 68% (mais de 1/3) destes novos casos ocorreram na África subsaariana.

O total de óbitos durante o ano de 2007 foi estimado em 2,1 milhões, tendo 76% deles ocorrido na África subsaariana. Diariamente, 6.800 pessoas tornam-se infectadas e 5.700 morrem de Aids, a maioria devido ao acesso inadequado aos serviços de prevenção e tratamento.

A prevalência global da infecção (percentagem de pessoas infectadas na população) permanece no mesmo nível, porque o aumento no número absoluto de casos se deve à soma das novas infecções com o maior tempo de sobrevida das antigas, além do crescimento da população mundial.

Globalmente, a epidemia tem dois padrões principais:

1. Epidemia generalizada entre as populações da África subsaariana; a prevalência de HIV em indivíduos com 15-49 anos é de 5% nessa região, enquanto no resto do mundo é inferior a 1%. A prevalência de indivíduos HIV positivos na população adulta ultrapassa 15% em oito países (referência de 2005): Botsuana, Lesoto, Moçambique, Namíbia, África do Sul, Suazilândia, Zâmbia e Zimbábue. Na África do Sul, a avaliação de grávidas em pré-natal mostrou 29% de positividade, enquanto na Suazilândia 26% dos adultos (15-49 anos) são positivos.

2. A epidemia no resto do mundo está primariamente concentrada entre as populações de maior risco, quais sejam, os homens que fazem sexo com homens (HSH), usuários de drogas injetáveis, trabalhadores do sexo e seus parceiros sexuais.

Na América Latina, o número de infectados entre adultos e crianças é de 1,6 milhão, enquanto o número de novas infecções em 2007 (100.000 casos) permaneceu estável; a prevalência global em adultos, na América Latina, é de 0,5%, tendo ocorrido 58.000 óbitos no ano passado. O Brasil possui 1/3 (620.000) de todas as pessoas vivendo com HIV na América Latina. Na Argentina e no Uruguai a epidemia está sendo devida, em sua grande maioria, a sexo não seguro, predominantemente entre heterossexuais, enquanto na Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru a transmissão predominante ocorre entre HSH.

Nos Estados Unidos a epidemia predomina no sexo masculino, com 74% dos casos; com relação aos casos novos, 53% ocorreram em HSH, 32% em heterossexuais e 18% em usuários de drogas injetáveis. Nesse país (EUA), a participação da raça negra na epidemia é significativa: enquanto a população americana é constituída por 13% de negros, eles são responsáveis por 48% dos novos casos de HIV/Aids.

A nova metodologia de estimativa dos casos de HIV/Aids mostrou queda substancial na Índia, referindo-se, na publicação em foco, 2,5 milhões de casos, uma prevalência na população de 0,36%.

Boletim Epidemiológico Brasileiro 2007

O Brasil também publicou recentemente o BO 2007; nele, dados citados merecem destaque:

- após cinco anos de diagnóstico, 90% das pessoas com HIV continuam vivas no Sudeste, enquanto no Norte o percentual cai para 78%;

- após um ano de diagnóstico, 3% das pessoas com HIV foram a óbito no Sudeste, enquanto no Norte a taxa subiu para 13,9%, a média brasileira sendo de 6,1%;

- de 1980 a junho de 2007 foram notificados 474.273 casos de Aids no Brasil, com 192.709 óbitos contabilizados de 1980 a 2006;

- a tendência da epidemia no Brasil também é de estabilização, embora em certas regiões (Norte e Nordeste) continue havendo crescimento;

- a prevalência da epidemia na população brasileira entre 15/49 anos é de 0,6%;

- está ocorrendo uma tendência de queda no número de casos: 32.628 em 2006 contra 38.816 em 2002; as taxas de incidência caíram de 22,2 casos/100.000 habitantes em 2002 para 19,5 em 2005 e para 17,5/100.000 em 2006;

- a predominância do sexo masculino vem caindo gradativamente, mas ainda permanece, sendo atualmente de 1,5/1; contudo, na faixa etária entre 13 a 19 anos há uma inversão, com predomínio feminino: 10/6;

- quanto às categorias de exposição, em homens com mais de 13 anos, observa-se crescimento significativo da epidemia em heterossexuais, estabilização entre homossexuais e bissexuais e redução entre usuários de drogas injetáveis.

Concluindo, os números continuam dirigindo a epidemia de Aids para as populações menos favorecidas (pauperização), as mais vulneráveis (HSH, trabalhadores do sexo, usuários de drogas injetáveis), o sexo feminino (feminilização) e para a adolescência (juvenilização). Pobreza, falha/falta de assistência médica (na prevenção e no diagnóstico) e a falta de medicação para quem tem indicação explicam o momento atual do maior problema de saúde pública na população de países em desenvolvimento.

Referências
1. UNAIDS. Em www.unaids.org AIDS epidemic update. December 2007. Acessado em 24/11/2007.
2. Boletim Epidemiológico 2007. Em www.aids.gov.br. Acessado em 21/11/2007.


Correspondência:
Dr. Hélio Vasconcellos Lopes
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