PUNTO DE VISTA / PONTO DE VISTA

Hantavírus no Brasil
Hantavirus in Brazil

Hélio Vasconcellos Lopes*


* Chefe do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Heliópolis. Chefe da Enfermaria de Doenças Infecciosas do Hospital Mário Covas. Professor Titular da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC.


Rev Panam Infectol 2004;6(3):49-50.




Recibido en 10/8/2004.
Aceptado para publicación en 17/9/2004.
O Brasil documentou, até o ano de 2001, 171 casos de hantaviroses, abrangendo pacientes de norte a sul do país. Identificação da virose ocorreu em 1985 (Le Duc et al.(1)) e, em 1993, três casos foram descobertos no Estado de São Paulo, região de Juquitiba(2), que deu nome ao vírus.

Esse vírus foi inicialmente descrito em 1934, na Suécia(3), em sua forma renal. No início da década de 50, na Iugoslávia(4). Em maio de 1993, casos de doença aguda foram reportados no Novo México, Arizona e Colorado, nos Estados Unidos(5). Atualmente, a virose está propagada globalmente, atingindo Europa, Ásia e Américas (Norte, Central e do Sul).

Na América do Sul, além do Brasil, atinge também principalmente Argentina, Chile e Paraguai(6). Portanto, a hantavirose é uma zoonose emergente e amplamente distribuída em praticamente todo o mundo.

O vírus é transmitido por roedores, geralmente silvestres, de vários gêneros e espécies. Sua transmissão ocorre fundamentalmente por partículas contaminadas por urina, fezes e saliva dos roedores infectados, ou diretamente, aqui se incluindo mordida.

O vírus, pertencente à família Bunyaviridae, por seqüenciamento genômico confirma a existência de múltiplas linhagens, com divergência variável entre os genes. Assim, temos genótipos virais do Velho Mundo (cerca de 4: Hantaan, Seoul, Puumala e Dobrava), que causam mais freqüentemente uma forma clínica denominada Forma Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR). No Novo Mundo, mais de duas dezenas de diferentes hantavírus causam habitualmente a síndrome cardiopulmonar do hantavírus (SCPH); eis alguns exemplos desses vírus: Sin Nombre e Prospect Hill, na América do Norte; Black Creek Canal, no sudoeste dos EUA, Rio Segundo, na Costa Rica, Laguna Negra, no Paraguai; Lechiguana, na Argentina e o Juquitiba, no Brasil(7).

Os objetivos deste trabalho, contudo, são os dois seguintes:

Primeiro, a constatação de um surto atual com (até esta data) 15 casos confirmados (9 óbitos e 6 curas) na região do Distrito Federal, todos com diagnóstico sorológico realizado pelo Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo(8). Além deste surto, também chamar a atenção para a figura 1, que mostra a distribuição geográfica do vírus, no Brasil, de 1993-2001, segundo a Funasa, Ministério da Saúde.



O outro objetivo é destacar o trabalho de um infectologista brasileiro, Wellington S. Mendes, professor da Universidade Federal do Maranhão. Wellington, após descobrir alguns casos desta virose no município maranhense de Anajatuba, resolveu aprofundar-se no tema e, após dois anos, concluiu sua tese de doutorado. A tese consiste de um estudo epidemiológico realizado naquele município. Dos 535 habitantes de Anajatuba, Wellington conseguiu rastrear os 398 que participaram do estudo; foram identificados 53 indivíduos (13,3%) com sorologia positiva, confirmada pela presença de anticorpos específicos da classe IgG, pela técnica de ELISA, usando como antígeno um genótipo viral oriundo do surto ocorrido no sudoeste dos EUA, denominado Sin Nombre.

A tese do Dr. Wellington analisa os fatores de risco para a infecção pelo hantavírus naquela região (sexo, idade, nível socioeconômico, profissão, presença de ratos, mordida por ratos, e outros fatores inerentes à inter-relação humano-roedor). Wellington avaliou, também, indivíduos cuja sorologia inicial era negativa e repetiu-a após 6 meses e 24 meses, obtendo valores de conversão. O estudo e a tese de Wellington foram resumidos em artigo recentemente publicado em revista oficial do Centers Disease Control (CDC)(9).

Considerando que a hantavirose é uma zoonose com propagação humana emergente, tanto no Brasil como em toda a América Latina (além, evidentemente das diversas regiões do mundo aqui citadas), é importante nos mantermos atentos às suas características clínico-epidemiológicas para a detecção precoce, diante de sua ocorrência.
 
Referências

1. Le Duc JW, Smith GA, Pinheiro FP, Vasconcelos P, Rosa E, Maiztegui JI. Isolation of a Hantaan-related virus from Brazilian rats and serologic evidence of its widespread distribution in South America. American Journal of Tropical Medicine and Hygiene 1985;34:810-815.
2. Holmes R, Boccanera R, Figueiredo LTM, Mançano SR, Pane C. Seroprevalence of Human Hantavirus Infection in the Ribeirão Preto Region of São Paulo State, Brazil (letter). Emerg Infect Dis 1995;171:864-70.
3. Myrman G. A renal disease with particular symptons. Nordisk Medicinsk Tidskrift 1934;7:793-4.
4. Clement J et al. The Hantaviruses of Europe: from the Bedside to the Bench, Emerg Infec Dis april-june, 1957;3(2).
5. Centers for Disease Control and Prevention. Outbreak of acute illness-Southwestern United States. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 1993;42:421-4.
6. Doenças Infecciosas e Parasitárias. Ministério da Saúde, Fundação Nacional da Saúde, Centro Nacional de Epidemiologia 1999.
7. O Estado de São Paulo, 24 de julho de 2004.
8. Mendes SM et al. Hantavirus infection in Anatajuba, Maranhão, Brazil. Emerg Infec Dis August 2004; 10(8):1496-1499.
9. Ferreira MS. Hantaviroses. Rev Soc Bras Med Trop Jan/Fev, 2003;36(1).




Correspondência:
Dr. Hélio Vasconcellos Lopes
R. Agostinho Rodrigues Filho, 435
CEP 04026-040 - São Paulo - SP - Brasil
e-mail: hvl@uol.com.br