Taís Rondello Bonatti1
Regina Maura Bueno Franco2*
1Aluna de Mestrado em Parasitologia. Departamento de Parasitologia, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas.
2Profa. Dra. em Parasitologia. Departamento de Parasitologia, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas.
Rev Panam Infectol 2007;9(3):17-19
Conflicto de intereses: ninguno
Recibido en 5/12/2006.
Aceptado para publicación en 23/7/2007. |
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Resumo
Protozoários patogênicos e helmintos requerem baixas doses infectantes, o que representa um risco para os trabalhadores que trabalham diretamente com esgoto em Estações de Tratamento de Esgoto (ETE). O objetivo deste estudo foi verificar a presença de cistos e oocistos de protozoários, ovos e larvas de helmintos em fezes de trabalhadores de uma ETE que trabalham direta e indiretamente com esgoto, ou seja, os que têm contato com esgoto (técnicos de laboratório e operadores de máquinas) e as pessoas que atuam na área administrativa da ETE. Dos 40 indivíduos que forneceram material para os exames, somente três apresentaram resultado positivo (7,30%). A prevalência de Ascaris lumbricoides foi de 2,50% e 4,87% para larva rabditóide de Strongyloides stercoralis.
Palavras-chave: Esgoto, trabalhadores, Ascaris lumbricoides, Strongyloides stercoralis, Saúde Pública.
Abstract
Pathogenic protozoa and helminths require low infecting doses presenting a risk for sewer workers, especially those who work directly with sewage at Sewage Treatment Plants (STP). The objective of this study was to verify the presence of the resistance forms as cysts and oocysts, helminths eggs and larvae in faeces of sewer workers who handle the sewage directly (laboratory technician and machine operators) and those who act in the administrative area at STP. A total of forty individuals had provided material to examinations and three had presented positive results (7.30%). The Ascaris lumbricoides prevalence was of 2,50% and 4,87% for Strongyloides stercoralis (rhabditiform larvae).
Key words: Sewage, workers, Ascaris lumbricoides, Strongyloides stercoralis, Public Health.
Introdução
O esgoto contém microrganismos provenientes das fezes humanas e animais. Os parasitos ganham entrada no esgoto de uma comunidade a partir de residências, hospitais, escolas, postos de saúde e são concentrados em várias ordens de grandeza no lodo de esgoto.(1) Os dejetos de origem animal ou esterco podem conter microrganismos zoonóticos (aqueles que podem causar doenças tanto em animais quanto em humanos) e entram no esgoto a partir de fazendas, deposição e acúmulo das fezes de animais e descarga de abatedouros.(1) Humanos podem entrar em contato com patógenos pelo contato direto com o lodo de esgoto ou esterco, pela ingestão de água ou alimentos contaminados com resíduos, por meio do contato com indivíduos ou vetores que tenham tido contato com o lodo de esgoto e via bioaerossol originado a partir da aplicação do resíduo no solo.(2)
No Brasil, poucos estudos relatam a presença de cistos e oocistos de protozoários e ovos de helmintos em amostras de esgoto.(3-5) Esses parasitos requerem uma baixa dose infectante, o que representa um risco para os trabalhadores de estações de tratamento de esgoto (ETE), especialmente aqueles que estão expostos diretamente ao esgoto. Dentre esses trabalhadores, além daqueles que manuseiam diretamente o lodo, existem também os técnicos responsáveis pelas análises de diversas etapas do tratamento.(6) O relatório do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (2000) confirmou que existe um risco potencial dos trabalhadores expostos a organismos patogênicos e recomenda a prevenção por meio de proteções pessoais, como o uso de luvas, óculos de proteção e práticas de higiene.(7) Esse relatório cita os organismos entéricos que podem ser encontrados em biossólidos de Classe B, como Escherichia coli, Salmonella, Shigella,
Campylobacter, Cryptosporidium, Giardia e vírus entéricos, mas ressalta que apesar de serem associados a doenças gastrointestinais autolimitantes, podem desenvolver sintomas mais severos em indivíduos imunocomprometidos, crianças e idosos.
Do ponto de vista da Saúde Pública, é interessante realizar essa investigação parasitológica em funcionários de estações de tratamento de esgoto.
O objetivo do presente trabalho foi verificar a presença de cistos e oocistos de protozoários, ovos e larvas de helmintos nas fezes dos trabalhadores de uma Estação de Tratamento que manuseiam o esgoto direta e indiretamente.
Materiais e métodos
O estudo foi realizado na Estação de Tratamento de Esgoto de Jundiaí, localizada na Região Sudeste do Brasil e responsável pelo tratamento de 100% do esgoto doméstico e industrial produzido por uma cidade de cerca de 500.000 habitantes. A produção de lodo de esgoto é de 200 toneladas por dia.
Participaram da pesquisa todos os 40 trabalhadores da ETE, que concordaram em fornecer o material para os exames. As amostras fecais foram colhidas em dois períodos: de agosto a novembro de 2004, três amostras de cada empregado, colhidas em dias alternados e conservadas em solução de formalina 10% e, em agosto de 2005, uma amostra, in natura.
Na primeira fase do estudo (agosto a novembro de 2004), as amostras foram processadas pelas seguintes técnicas, descritas a seguir. Antes da realização dos procedimentos as amostras foram homogeneizadas com bastão de vidro e peneiradas em tela metálica.
- Sedimentação espontânea(8) para a pesquisa de ovos de helmintos;
- Flutuação em solução de cloreto de sódio,(9) para a pesquisa de ovos de Ancylostoma;
- Centrífugo-flutuação em solução saturada de sulfato de zinco,(10) para a pesquisa de cistos de Giardia;
- Centrífugo-sedimentação e formalina-éter,(11) para a pesquisa de oocistos de Cryptosporidium, com algumas modificações,(12) descritas a seguir:
Foram colocados 3 mL da suspensão fecal em tubos de centrífuga e procedeu-se à centrifugação a 500 x g durante dez minutos. O sobrenadante foi desprezado. Em seguida, o sedimento foi ressuspenso em água destilada, homogeneizado e o volume do tubo completado. Novamente o conteúdo foi centrifugado a 500 x g durante dez minutos. O sobrenadante foi desprezado e, ao sedimento, adicionados 3 mL de éter previamente refrigerado. O conteúdo do tubo foi então homogeneizado manual e vigorosamente durante 30 segundos. Em seguida, o volume foi completado com água destilada e procedeu-se à centrifugação (500 x g por dez minutos). As camadas superiores foram desprezadas, exceto o sedimento e a fase aquosa. Deste, foram confeccionados três esfregaços fecais para cada amostra e foram deixados secar para posterior coloração de Ziehl-Neelsen.(13)
Na segunda fase do estudo (agosto de 2005), as amostras foram processadas por técnica de exploração do comportamento biológico de larvas de Nematoda(14) com fezes in natura. Foram colhidas dez amostras por dia, totalizando quatro dias de processamento no laboratório. O transporte foi feito em caixa de isopor com temperatura de 4°C.
Aspectos éticos
Os trabalhadores da ETE assinaram termo de consentimento que permitia a coleta e o exame das amostras fecais e foram informados sobre os procedimentos e estudos realizados.
resultados
Dos 40 trabalhadores que cederam o material para exame, apenas três (7,30%) apresentaram elementos parasitários em suas fezes. A freqüência de infecção foi de 2,50% para Ascaris lumbricoides (um trabalhador infectado) e de 4,80% para Strongyloides stercoralis (dois trabalhadores infectados).
O ovo de Ascaris lumbricoides foi verificado com o emprego da técnica centrífugo-flutuação em solução saturada de sulfato de zinco(10) e as larvas de Strongyloides stercoralis, por meio da exploração do comportamento biológico de larvas de Nematoda(14) com fezes in natura.
Discussão
De acordo com Schlosser et al.,(6) em levantamento realizado na França, existe um risco crescente de contaminação por parasitos em trabalhadores expostos ao esgoto bruto. Segundo Friis,(15) existe uma correlação positiva entre a presença de protozoários nas fezes de trabalhadores que lidam com o esgoto e a duração da exposição. Esse autor também sugere que a prevalência da infecção com parasitos intestinais diminui com a melhora das regras de higiene. A baixa prevalência de enteroparasitoses, observada na presente pesquisa, pode estar associada às campanhas de higiene que a própria empresa de saneamento promove.
No caso do presente estudo, os indivíduos infectados poderiam ter adquirido tais parasitos fora do ambiente de trabalho. Entretanto, é interessante ressaltar que tais trabalhadores executavam funções relacionadas diretamente com o manuseio do lodo de esgoto (operador de equipamento que realiza a função de passar com a máquina sobre as leiras com o objetivo de revolver o lodo de esgoto e ajudante geral), fato que pode indicar um risco maior de infecção.
Strongyloides stercoralis é o único nematódeo com ciclo endógeno que infecta humanos por muitos anos sem requerer exposição após contaminação ao solo, uma situação caracterizada por poucos ou nenhum sintoma, o que pode passar sem ser noticiado,(16) como relatado pelos trabalhadores cujos exames de fezes foram positivos para esse helminto.
Agradecimentos
Aos trabalhadores que forneceram o material para a realização deste trabalho.
Referências
1. O’Connor GAO, Elliot HA, Basta NT, Bastian RK, Pierzynski GM, Sims RC et al. Sustainable land application: an overview. J Environ Qual. 2005;34:7-17.
2. Gerba PC, Smith Jr J.E. Source of pathogenic microorganisms and their fate during land application of wastes. J Environ Qual. 2005;34:42-48.
3. Paulino RC, Castro EA, Soccol VT. Tratamento anaeróbio de esgoto e sua eficiência na redução da viabilidade de ovos de helmintos. Rev Soc Bras Med Trop. 2001;34:421-428.
4. Dias Jr O. Ocorrência de cistos de Giardia sp e oocistos de Cryptosporidium sp em águas superficiais e esgoto no município de Araras - SP. Tese. Universidade Presbiteriana Mackenzie; 1999.
5. Farias EWC, Gamba RC, Pellizari VH. Detection of Cryptosporidium spp. in raw and creek water in the city of São Paulo, Brazil. Braz J Microbiol. 2002;33:41-43.
6. Schlosser O, Grall D, Laurenceau MN. Intestinal parasite carriage in workers exposed to sewage. Eur J Epidemiol. 1999;15:261-265.
7. National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH). Hazard ID 10: Workers exposed to Class B biosolids during and after field application. Publication N. 2000-158. Washington: United States Department of Health and Human Services, 2000.
8. Hoffman WA, Pons JA, Janer JL. The sedimentation-concentration method in schistosomiasis mansoni. J Publ Health. 1934;9:281-298.
9. Willis HH. A simple levitation method for the detection of hookworm ova. Med J Australia. 1921;29:375-376.
10. Faust EC, Sawitz W, Tobie, J et al. Comparative efficiency of various techniques for the diagnosis of protozoa and helminths in feces. J Parasitol. 1939;25:241-242.
11. Waldman E, Tzipori S, Forsyth JRL. Separation of Cryptosporidium species oocysts from feces by using a percoll discontinuous density gradient. J Clin Microb. 1986;23:199-200.
12. Franco RMB. Infecções parasitárias em creche: estudo em uma area urbana, com ênfase em Cryptosporidium parvum e Giardia duodenalis. Tese. Universidade Estadual de Campinas; 1996.
13. Henriksen A, Pohlenz JFL. Staining of Cryptosporidium by a modified Ziehl-Neelsen technique. Acta Vet Scand. 1981;22:594-596.
14. Rugai E, Mattos T, Brisola AP. Nova técnica para isolar larvas de nematóides das fezes modificação do método de Baermann. Rev Inst A Lutz. 1954;14:5-8.
15. Friis L. Health of municipal sewage workers. Studies of cancer incidence, biomarkers of carcinogenicity and genotoxicity, and self reported symptoms. Acta Universitatis Upsaliensis. Comprehensive Summaries of Uppsala Dissertations from theFaculty of Medicine 1015. 67 pp. Uppsala. ISBN 91-554-4980-8. 2001.
16. Román-Sánchez P, Pastor-Guzmán A, Moreno-Guillén S, Igual-Adell R, Suñer-Generoso S, Tornero-Estebanez C. High prevalence of Strongyloides stercoralis among farm workers on the mediterranean coast of Soain: analysis of the predictive factors of infection in developed countries. Am J Trop Hyg. 2003;69:336-340. |