PUNTO DE VISTA / PONTO DE VISTA
O papel atual da vancomicina nas
infecções estafilocócicas

The current role of vancomycin in the staphylococcal infections
Hélio Vasconcellos Lopes


Professor Titular da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC. Chefe da Enfermaria de Doenças Infecciosas do Hospital Estadual Mário Covas. Coordenador do Programa DST/AIDS da Secretaria Municipal da Saúde de Santos.


Rev Panam Infectol 2007;9(3):70-71


Conflicto de intereses: ninguno


Recibido en 21/8/2007.
Aceptado para publicación en 10/9/2007.
Dois artigos publicados recentemente no Clinical Infectious Diseases,(1,2) intitulados Ponto e Contraponto, evidenciam, com vasta gama de referências bibliográficas, os prós e os contras do papel atual da vancomicina na terapêutica das infecções causadas pelo Staphylococcus aureus, seja por cepas sensíveis ou resistentes à meticilina.

Vancomicina está se tornando obsoleta
O artigo de Deresinski(1) defende a tese de que vancomicina é um antibiótico que caminha rapidamente para se tornar obsoleto em futuro próximo.

Sua argumentação é convincente; vejamos alguns dados mais significativos:

- a eficácia da vancomicina está fortemente comprometida por sua pobre penetração tecidual - devido a seu elevado peso molecular -, mostrando concentrações de 14% e de 30% em pulmão e em tecidos moles, respectivamente, quando comparadas às concentrações séricas;

- as concentrações de vancomicina necessárias para inibir o crescimento do S. aureus estão aumentando progressivamente, o que vem sendo fartamente documentado pela crescente elevação das concentrações inibitórias mínimas (MICs); valores de MICs = 2 µg/ml têm revelado percentuais elevados de resistência por parte do S. aureus;

- a tentativa de corrigir a progressiva resistência com a elevação das doses tem mostrado pouco benefício e risco maior, devido ao aumento de sua toxicidade potencial;

- de modo semelhante, a tentativa de melhorar sua eficácia combinando-a com outro antibiótico (como a gentamicina) tem mostrado apenas elevação da toxicidade;

- estudos comparando-a com outros antibióticos – tais como telavancina, daptomicina, dalbavancina e linezolida – não conseguem evidenciar nenhuma vantagem para o lado da vancomicina;

- por fim, o autor cita o único argumento pró-vancomicina: seu custo; realmente, o custo financeiro de um tratamento com vancomicina é muitas vezes inferior ao dos novos antibióticos citados; este argumento (não científico) assume maior importância nos países latino-americanos, onde o poder aquisitivo da grande maioria da população é baixo e a capacidade econômica dos poderes públicos (municipal, estadual e federal) é fortemente limitada.

Vancomicina ainda é bastante útil
Neste artigo,(2) seus autores (Mohr e Murray) fazem uma ampla análise da vancomicina, no que diz respeito às suas características, favoráveis ou não. Eis uma síntese de suas colocações:

- citam que o Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI) recentemente mudou o breakpoint para sensibilidade do S. aureus à vancomicina de < 4 µg/mL para < 2 µg/mL, com base na alta taxa de falhas clínicas com sua utilização em infecções por S. aureus com MIC = 4 µg/mL;

- o mecanismo de resistência das cepas de S. aureus com resistência intermediária à vancomicina (VISA) relaciona-se à superprodução de D-Ala D-Ala no peptideoglicano da parede celular, que passa a atuar como uma esponja, absorvendo a vancomicina antes que ela alcance seu sítio de ação; daí, a resposta clínica pobre quando do tratamento de infecções causadas por cepas VISA;

- a possível ocorrência de cepas de S. aureus que exibem heterorresistência à vancomicina (hVISA); estas cepas contêm uma subpopulação de organismos que sofrem uma reduzida destruição pela vancomicina in vitro. Os MICs destas hVISA estão dentro dos padrões de sensibilidade, mas tendem para o nível mais elevado, de 2 µg/mL; em um estudo com 1.357 cepas de MRSA isoladas de 1997 a 2000, em 12 países asiáticos, nenhum caso de VISA foi isolado, enquanto 4,3% de cepas hVISA o foram;

- embora o MIC seja o método rotineiro adotado para definir sensibilidade, esta informação (de sensibilidade) não prediz eficácia terapêutica com vancomicina; assim, outros parâmetros farmacodinâmicos necessitam ser avaliados e aplicados;

- parece haver uma desconexão entre in vitro/in vivo no que é definido como sensibilidade e sucesso clínico no tratamento de infecções como pneumonia e bacteriemia;

- quanto maiores os MICs, mesmo dentro dos padrões de sensibilidade (iguais ou inferiores a 2 µg/mL), maiores as possibilidades de falha terapêutica;

- em estudos realizados em animais, o melhor parâmetro farmacodinâmico para medir a eficácia terapêutica da vancomicina mostrou-se ser a relação área sob a curva/concentração inibitória mínima (AUC/MIC): valores desta relação compatíveis com maior resposta clínica e erradicação microbiológica estão acima de 500, valores irreais, pois, para serem alcançados, exigiriam doses elevadíssimas e MICs baixíssimos;

- trabalhos recentes evidenciam um crescimento progressivo nos valores de MIC para o S. aureus com vancomicina;

- os autores citam várias referências mostrando não haver inferioridade da vancomicina em estudos clínicos comparativos com tigeciclina, linezolida, telavancina, oritavancina, ceftobiprole e daptomicina;

- documentam que há um aumento percentual no isolamento de cepas hVISA quando os MICs do S. aureus para vancomicina são iguais a 2 µg/mL.

Concluem estes autores que vancomicina ainda é antibiótico seguro, de fácil utilização e de baixo custo e que a dificuldade para tratar certos organismos e certas infecções por S. aureus exige novas estratégias para o emprego de doses que se ajustem às propriedades farmacodinâmicas da droga e o desenvolvimento de novos breakpoints para avaliar a sensibilidade com base na resposta clínica.

Pelos argumentos - favoráveis ou não - dos dois artigos, um fato é certo: vancomicina vem sendo fortemente questionada devido ao elevado percentual de falhas terapêuticas constatadas com sua utilização na prática clínica. Conseguirá a Medicina desenvolver novos métodos ou critérios para a previsão de eficácia que garantam seu sucesso na terapêutica das infecções estafilocócicas nas próximas décadas? Ou a evidente decadência terapêutica da vancomicina resultará em sua substituição pelos novos antibióticos antiestafilocócicos? E quanto aos laboratórios produtores, será que eles respeitarão a realidade econômica dos países pobres, ditos em desenvolvimento, tornando a aquisição destes novos antimicrobianos menos onerosa?

Referências
1. Deresinski S. Counterpoint: Vancomycin and Staphylococcus aureus - an antibiotic enters obsolescence. Clin Infec Dis. 2007;44(15 June):1543.
2. Mohr J, Murray BE. Point: Vancomycin is not obsolet for the treatment of infection caused by methicillin-resistant Staphylococcus aureus. Clin Infec Dis. 2007;44(15 June):1536.