EDITORIAL
Avanços em Criptosporidiose

Dr. Sérgio Cimerman
Chefe da Primeira Unidade de Internação do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, São Paulo, SP.
Sociedade Ibero-Americana de Infectologia - um Partilhar de Conhecimentos e de Experiências

Dr. Henrique Lecour
Presidente da Comissão Instaladora da Sociedade Ibero-Americana de Infectologia (SIAI).
Avanços em Criptosporidiose

A criptosporidiose é uma doença parasitária causada por um protozoário isolado por Tyzzer, em 1907, chamado Cryptosporidium sp. Até bem pouco tempo e ainda de modo errôneo denominamos os casos de acometimento em humanos de C. parvum. Existem inúmeras espécies que podem também levar a agravo em seres humanos, como por exemplo C. hominis, C. muris, entre outros(1).

A criptosporidiose tomou importância considerável no meio médico a partir do descobrimento da aids nos idos de 1981-1982, com o aparecimento de diarréia crônica de difícil resolutibilidade, e por se verificar até aquele momento apenas em Medicina Veterinária. A sua prevalência tem se mantida nos países em desenvolvimento ao redor de 6% mesmo com o uso da terapia anti-retroviral altamente efetiva e potente, denominada HAART, e de distribuição universal no Brasil(2).

Uma centena de drogas já foram testadas e usadas no tratamento da criptosporidiose desde a década de 1980, porém nenhuma consistência no que concerne ao efeito curativo, tanto clínica e parasitológica. Existe uma enorme dificuldade em encontrarmos um fármaco capaz de promover, além de excelente atividade in vitro, um caráter in vivo mais eficaz e duradouro(3).

Em nossos serviços de infectologia existem várias opções, porém a grande maioria recai na administração de macrolídeos, tais como azitromicina ou roxitromicina, com períodos discutíveis de tratamento ao redor de 14-21 dias. É algo empírico que se emprega por este tempo de tratamento, aliado a melhora clínica do paciente, com ausência da sintomatologia principal, que é a diarréia. A literatura revela na maioria das oportunidades uma cura clínica com persistência dos oocistos de Cryptosporidium nos espécimes fecais dos pacientes. É o que denominamos de portador - são que em qualquer fase poderá reativar esta infecção intestinal e promover altos graus de desidratação severa, podendo levar o individuo à necessidade de reposição volêmica em caráter urgencial, às vezes necessitando de cuidados intensivos. Academicamente não podemos assim dizer que o paciente encontra-se curado desta protozoose.

Baseados em todas estas informações, vemos a possibilidade de nova droga antiparasitária com ação anticriptosporídea, chamada de nitazoxanida, ser efetiva também nos pacientes imunocomprometidos, em especial em aids.

Esta droga apresenta uma posologia confortável de 500 mg de 12/12 horas por três dias em imunocompetentes e, nos imunodeprimidos, 1 grama por via oral, duas vezes ao dia, por uma extensão de tratamento que pode variar de 14 dias até oito semanas, dependendo muito do grau de imunodeficiência do paciente, mensurado pelas células linfocíticas CD4. Os trabalhos revelam uma cura clínica satisfatória além do incremento de células CD4 e diminuição de viremia plasmática(4). Este nitotiazólico tem ação com outros parasitos intestinais, como Giardia lamblia, Complexo Entamoeba histolytica/dispar, Blastocystis hominis, Isospora belli, e na maioria dos helmintos. Vale a ressalva de que para todas as outras parasitoses que não a criptosporidiose, o esquema preconizado na sua maioria também é 500 mg duas vezes ao dia com três dias de tratamento. A nitazoxanida já é encontrada no mercado da América Latina e aprovada pelo FDA desde 2002, para uso em casos de giardíase e criptosporidiose para crianças(5). No Brasil, a nitazoxanida foi apresentada à classe médica, em setembro deste ano, inicialmente na forma de suspensão e, em breve, disponibilizada também para comprimidos (informação pessoal - Tayah, M).

Deste modo, acreditamos que depois de vários anos sem avanços na terapia de doenças parasitárias intestinais, a nitazoxanida possa assumir um papel de destaque, auxiliando infectologistas e, sobretudo, os pacientes.

Dr. Sérgio Cimerman
Chefe da Primeira Unidade de Internação do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, São Paulo, SP.

Referências
1. Smith HV & Corcoran GD. New drugs and treatment for cryptosporidiosis. Curr Opin Infect Dis. 2004;16:557-64.
2. Cimerman S, Castañeda CG, Iuliano WA, Palacios R. Perfil das enteroparasitoses diagnosticadas em pacientes com infecção pelo vírus HIV na era da terapia anti-retroviral potente em um centro de referência em São Paulo, Brasil. Parasitol Latinam. 2002; 57:111-119.
3. Feldman: Sleisenger & Fordtran’s Gastrointestinal and Liver Disease, 7th ed- Saunders,2002.
4. Rossignol JF, Hidalgo H, Feregrino M, Higuera F, Gomez WH, Romero JL, et al. A double-’blind’ placebo-controlled study of nitazoxanide in the treatment of cryptosporidial diarrhoea in AIDS patients in Mexico. Trans Royal Soc Trop Med Hyg. 1998; 92:663-666.
5. White Jr AC. Nitazoxanide: a new broad spectrum antiparasitic agent. Expert Rev Anti-Infect Ther. 2004;2:43-50.
Sociedade Ibero-Americana de Infectologia -
um Partilhar de Conhecimentos e de Experiências

Em 24 de maio do corrente ano, com o acto de escritura da fundação da Sociedade Ibero-Americana de Infectologia (SIAI), firmado na cidade do Porto, pode finalmente dar-se início à concretização de um projecto que alguns desde há muito anos acalentavam.

A nova sociedade, que dá agora os seus primeiros passos, sob os auspícios da Associação Pan-Americana de Infectologia, da Sociedade Espanhola de Quimioterapia e da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica, tem por objectivos fundamentais promover a Infecciologia, a Microbiologia Clínica e a Quimioterapia Antiinfecciosa nos países ibéricos e latino-americanos, entre outras iniciativas, organizando e patrocinando congressos, reuniões científicas e cursos de pós-graduação nesse âmbito. Naturalmente que estas acções poderão criar condições que permitam fomentar a investigação e a prática na área da patologia infecciosa.

É desejo primordial dos fundadores da SIAI que a sua actividade contribua de modo notório para um maior estreitamento das relações entre as comunidades médicas e científicas dos países ibéricos e latino-americanos, ligados por um passado secular que, na riqueza das suas tradições e na sua diversidade cultural e histórica, muito têm em comum.

A inserção dos países ibéricos no continente europeu, acrescida da circunstância de ambos estarem integrados na União Européia, pode vir ainda possibilitar o estabelecimento de novas pontes entre a América Latina e a Europa, desiderato em que todos estamos interessados e que se integra plenamente num Mundo cada vez mais globalizado.

E nesse aspecto a patologia infecciosa assume particular relevância, já que não há fronteiras que os agentes microbianos não possam ultrapassar. As migrações entre países distantes, particularmente dos países mais pobres para os países industrializados, as deslocações para destinos tropicais, muitas vezes sem condições sanitárias, a facilidade e a rapidez das viagens intercontinentais, a procura de comidas exóticas, freqüentemente sem os requisitos de segurança alimentar, fazem com que cada vez mais a patologia infecciosa deixe de se revestir dos padrões tradicionais e assuma novas e preocupantes ameaças. O ressurgir de velhas doenças, embora com diferente feição, a progressão que a SIDA tomou nas duas últimas décadas, com enormes repercussões socioeconómicas e demográficas, a eclosão de novos surtos epidémicos em áreas até então indemnes, o risco de uma nova pandemia gripal, a utilização de agentes microbianos com fins terroristas, constituem no seu todo alguns exemplos que justificam a importância actual da Infecciologia. Por seu lado, o espantoso desenvolvimento que nos últimos anos se verificou no domínio da biologia molecular veio trazer um aporte de imensurável valia na compreensão da patogenia de muitas das doenças infecciosas e grandes avanços no esclarecimento do seu diagnóstico.

Tudo isso é bem indiciador de como são enormes os desafios que hoje se põem à especialidade a que nos dedicamos. A Sociedade que agora trazemos ao vosso conhecimento poderá ser um novo foro de discussão e de procura das soluções mais adequadas para os problemas que nos afligem no quotidiano, pesem embora as naturais diferenças que nos possam separar. Mas essa diversidade é evidentemente uma riqueza que nunca poderá ser minorada.

Em 31 de maio e em 1 e 2 de junho de 2007, a SIAI irá realizar o seu 1º Congresso em Espanha, na monumental e bela cidade de Salamanca, cidade a que a Unesco atribuiu muito justamente o atributo de património da Humanidade, pelo seu vetusto conjunto arquitectónico e pela riqueza do seu passado histórico e do seu contributo para a cultura humanista. O 1º Congresso da SIAI será realizado em simultâneo com o IX Congresso Espanhol de Quimioterapia, a ambos presidindo o Professor José Angel Garcia Rodriguez, actual vice-presidente da Comissão Instaladora da SIAI. Durante o Congresso deverá ser realizada a eleição dos primeiros órgãos sociais da nova sociedade.

De referir que a SIAI deverá ainda participar no XIII Congresso da API, a se realizar em agosto do próximo ano, em Punta Cana, República Dominicana.

Não estando ainda, criada na Internet a página da SIAI, informações referentes aos congressos de Salamanca, bem como sobre a Sociedade – seus Estatutos, Comissão Instaladora, sócios fundadores, secretariado e ficha de inscrição, podem ser encontradas na página da SEQ (www.seq.es).

É pois com a esperança que os objectivos da SIAI possam interessar a todos que se dedicam à patologia infecciosa, que fazemos a apresentação desta nova Sociedade. Apenas com o contributo de todos poderemos esperar a concretização dos objectivos que justificaram o seu aparecimento.

Dr. Henrique Lecour
Presidente da Comissão Instaladora da Sociedade Ibero-Americana de Infectologia (SIAI).