PUNTO DE VISTA/PONTO DE VISTA
O mundo em que vivemos

The world we live in
Hélio Vasconcellos Lopes*

*Coordenador do Programa Municipal DST/Aids/Hepatites da Secretaria de Saúde de Santos. Professor Titular de Infectologia da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC.


Rev Panam Infectol 2008;10(2):54-55


Conflicto de intereses: ninguno

Recibido en 20/5/2008.
Aceptado para publicación en 2/6/2008.


Doenças emergentes (Aids) e reemergentes (dengue, tuberculose, malária), maremoto (tsunami), ciclone (Nargis, em Myanmar) e o terremoto (China) fazem parte de nosso cotidiano; estas injúrias matam bastante: 20 milhões por Aids, 3 milhões/ano por tuberculose, 3 milhões por malária. O tsunami, por exemplo, matou 300.000 pessoas - além de deixar enormes seqüelas, danos estes presentes após todos os outros eventos catastróficos da natureza.

Contudo, não são os eventos naturais os maiores culpados pelas desgraças devidas à brutal desigualdade humana que afeta nosso planeta; somos nós, os habitantes deste mundo, cada um com sua parcela de culpa, os responsáveis por fatos absurdos documentados em nosso dia-a-dia. Documentando, vejam que - para um total de mais de 6 bilhões de terráqueos -, temos os seguintes dados:

Pobreza e miséria. Mais de 1 bilhão de pessoas vivem (?) em nosso mundo com menos de 1 dólar por dia; outros 2,7 bilhões lutam para sobreviver com menos de 2 dólares por dia.

Fome e desnutrição. Aqui se inclui um contingente de mais de 800 milhões de pessoas, sendo que 300 milhões são crianças que vão se deitar todas as noites com fome; evidentemente, a grande maioria dessas crianças sofre de má nutrição prolongada, crônica; a cada 3,6 segundos morre uma pessoa de fome, sendo, em sua grande maioria, uma criança com menos de cinco anos de idade.

Saneamento básico. Cerca de 40% da população mundial (2,6 bilhões) carece de saneamento básico, mais de 1 bilhão continua a usar fontes de água impróprias para consumo e quatro em cada dez pessoas, no mundo, não dispõem de acesso a uma simples latrina. Conseqüentemente, cinco milhões de pessoas (crianças, na maioria) morrem todos os anos de doenças relacionadas à qualidade da água: disenteria bacilar, 164 milhões de casos/ano, outras diarréias (cólera, salmonelose) e leptospirose, entre outras.

Doenças. Todos os anos morrem seis milhões de crianças (a maioria abaixo dos cinco anos) devido a causas totalmente evitáveis, como malária, diarréia e pneumonia. A maioria dos africanos sofre de doenças relacionadas à qualidade da água, como cólera e diarréia infantil. Todos os dias, HIV/Aids mata seis mil pessoas e infecta outras 8.200. Temos no mundo cerca de seis milhões de pacientes infectados pelo HIV com indicação de tratamento: sabem quantos têm acesso ao esquema anti-retroviral? Apenas 12% deles. Na África subsaariana, apenas 10% das grávidas com necessidade da terapia a recebem.

Educação. No mundo, cerca de 600 milhões de mulheres são analfabetas e 114 milhões de crianças não recebem instrução sequer ao nível básico.

Gravidez e parto. Cerca de 1.400 mulheres morrem, por dia, durante a gravidez ou no parto, somando 529.000 óbitos anuais. Estima-se que uma mulher na África subsaariana tem 1 possibilidade em 16 de morrer durante a gravidez e/ou parto.

Um relatório, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 17/01/2005, estima que pobreza e miséria matam, a cada cinco dias, o equivalente ao número de óbitos ocorridos no tsunami de 2004, o que resulta em uma mortalidade semelhante à causada pela soma de 68 tsunamis por ano.

A maioria dos dados aqui citados é fornecida pelo Projeto Milênio, proposto pelas Nações Unidas, em 2002, visando minimizar todas as aberrações apontadas acima. O cálculo inicial do projeto referia a necessidade de 140 bilhões de dólares para se alcançar esse objetivo, valor equivalente a 0,44% do PIB (produto interno bruto) dos países ricos. Mas esse dinheiro não aparece; e o que aparece, freqüentemente é mal administrado ou corrompido.

Apenas à guisa de comparação, os Estados Unidos gastaram – até agora – com a invasão do Iraque, 520 bilhões de dólares. A previsão orçamentária para a defesa norte americana (Forças Armadas e gastos paralelos) situa-se, neste ano, em 1,1 trilhão de dólares.

E continuamos nós, habitantes dos países “em desenvolvimento”, vivendo, convivendo e morrendo com estes dados cruéis, desumanos.

Referências
1. Consulta internet em 14/05/08 http://www.unmillenniumproject.org/index.htm
2. Consulta internet em 14/05/08 www.unaids.org/en/default.asp
3. Consulta internet em 14/05/08 www.who.int/whr/2007/07_overview-es.pdf
4. Relatório da ONU divulgado em 17/01/05.