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| EDITORIAL |
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Antimicrobianos - Repensar Um Velho Hábito
No ano 2000, a Organização Mundial da Saúde elaborou o ranking de prestação de serviços à saúde de 191 países, no qual foram avaliados cinco itens:
1. O nível global de saúde da população, avaliando a expectativa de vida;
2. Outro tópico abordado foi a prestação de serviços às populações carentes, enfatizando desigualdades sociais. Neste item sugerimos a pesquisa do Índice “Gini”, que analisa as desigualdades existentes entre as pessoas mais ricas e as mais pobres dos países, especialmente no que se refere à renda da população;
3. O terceiro item foi o nível global de resposta ao Sistema de Saúde, sendo que a satisfação do usuário, o funcionamento do Sistema e a concentração e a distribuição dos serviços foram analisados;
4. O quarto item foi a capacidade de resposta do Sistema, onde se quantifica a facilidade ou dificuldade de acesso aos serviços;
5. E por último a divisão de carga financeira, onde o financiamento e os gastos dos pobres e dos ricos com a Saúde são avaliados.
Os dados mostram que os EUA gastaram com saúde em 1980 cerca de 250 bilhões de dólares; em 1990, 600 bilhões de dólares; e em 2000, 1 trilhão e 400 bilhões de dólares, com custos que variam de 1.300 a 3.724 dólares por habitante, representando esta quantia ao redor de 12,7% do PIB (Produto Interno Bruto) americano, que é da ordem de 9 trilhões de dólares. O Canadá gastou de 1.500 a 2.000 dólares por habitante, cerca de 9,1% do PIB canadense e o Brasil gasta em cerca de 300 a 420 dólares, 4,2% do PIB brasileiro, que é de cerca de 900 bilhões de dólares.
Neste cenário, a OMS mostra que 75% das doenças poderiam ser evitadas com boa alimentação, água limpa e higiene ambiental e pessoal e que deveríamos ter cerca de 250 medicamentos essenciais, sendo que na Grã-Bretanha 150 medicamentos resolvem 90% dos casos, enquanto nos EUA, 70% dos medicamentos são duplicatas, similares ou dispensáveis. Ao analisarmos os dados do FDA americano, notamos que 80% dos novos medicamentos representam pouco ou nenhum progresso.
Neste cenário, o uso de antibióticos, que têm mercado anual de cerca de 31 bilhões de dólares, deve ser reavaliado, pois como cita Suda, 50% destes compostos usados em infecções respiratórias na comunidade são inadequados, enquanto nos EUA, de acordo com MacDougall, nos anos 2002 e 2003, em um estudo em 130 hospitais americanos, cerca de 60% dos pacientes adultos hospitalizados receberam antibióticos, na maior parte da classe das cefalosporinas e quinolonas e a Organização Mundial da Saúde, em seu Public Policy de 1990, cita que 37% das crianças americanas com três meses de vida recebem um ou mais antibióticos, e que com seis meses de vida, 70% delas já receberam estes compostos, que são prescritos em 80 milhões de vezes por ano, perfazendo um total de 12,5 toneladas, o que representa 20% dos antibióticos prescritos no mundo. Estes compostos são usados na agropecuária em montante que chega a ser de 400 a 500 toneladas por ano.
Na agropecuária, os antibióticos são utilizados em sua grande maioria como fatores de crescimento ou preventivo de doenças. Um exemplo é a adição de 4 a 25 gramas deles em cada tonelada de ração animal. Outro fato interessante é que podemos encontrar 50 gramas desses produtos em cada quilo de carne bovina consumida.
Quinolonas como sarafloxacina, norfloxacina, enrofloxacina e ciprofloxacina são usadas na criação de peixes e camarões, enquanto penicilinas, lincomicinas, tetraciclinas, cloranfenicol são utilizados na criação de frangos e porcos, sendo que não devemos esquecer a avoparcina e virgianamicina, que foram utilizadas largamente na criação de aves. As tetraciclinas e estreptomicinas são pulverizadas nas culturas de maçãs, pêssegos e nectarinas. Bactérias como micoplasmas habitam a Terra há três bilhões de anos e, como outras bactérias, desenvolvem com o decorrer do tempo vários mecanismos de resistência, causando infecções de difícil tratamento.
Frente à escassez de recursos, frente às desigualdades sociais, frente à crescente resistência dos microrganismos, será que não deveríamos repensar a utilização de antimicrobianos nas plantas, animais e seres humanos?
Dr. Marcos Antonio Cyrillo
Infectologista e Coordenador da CCIH do Hospital Santa Catarina, do Hospital do Servidor Público
Municipal, em São Paulo, SP e do Instituto de Gastroenterologia de São Paulo SP (IGESP). |
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