ARTÍCULO ORIGINAL / ARTIGO ORIGINAL

Avaliação preliminar da associação do vírus da
imunodeficiência humana (HIV) com as hepatites virais do tipo B e C
em dois centros de investigação do Brasil

Preliminary evaluation of the association of immunodeficiency human virus (HIV)
with the hepatitis type B and C in two centers of inquiry of Brazil

José Ivan Aguiar1
Silvia Naomi Uehara2
Priscilla Alexandrino Oliveira2
Marcelo Pesce da Costa3
Roberto Ruhman Daher4
Bruna Salles Silva5
Roberta Lima Vasconcellos5
Vandeilton Santos5


1 Professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Mato Grosso do Sul, Brasil.
2 Médicos do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Mato Grosso do Sul, Brasil.
3 Médico da Secretaria de Higiene e Saúde de Bauru. Bauru, São Paulo, Brasil.
4 Professor do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (IPTSP-GO). Goiás, Brasil.
5 Médicos Residentes do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Mato Grosso do Sul, Brasil.


Rev Panam Infectol 2005;7(2):29-32


Recibido en 2/5/2005.
Aceptado para publicación en 16/6/2005
.
Resumo
A associação do HIV com os vírus das hepatites B e C se constitui num evento comum na região estudada, considerando a importância da transmissão parenteral através do uso de drogas injetáveis. No grupo estudado, a média de idade foi de 37 anos (17 e 52), sendo evidenciada uma diferença significativa entre os gêneros masculino e feminino na associação HIV, HBV/HCV (p< 0,05). Não foi observada diferença estatisticamente significativa entre a transmissão sangüínea e sexual (p >0,05). A associação HIV/HCV foi predominante, enquanto em 25% dos casos existia marcador de infecção para o HBV. A associação análogo nucleosídeo (NRTI) e não-análogo (NNRTI) foi utilizada em 61,5% dos casos. Efavirenz entre os não-análogos e Nelfinavir entre os inibidores da protease (IP) foram os mais prescritos. Setenta e oito (78,8%) dos pacientes estavam em tratamento anti-retroviral e 5,8% foram tratados da co-infecção HIV/HCV. Setenta e sete por cento (77%) dos co-infectados HIV/HCV eram genótipo 1 e os demais eram do tipo 3. No momento do diagnóstico, 41,2% dos casos tinham ALT variando entre 65-198 mg/dL. O CD4 após início do tratamento não demonstrou aumento superior a 25%, enquanto a carga viral teve uma queda em torno de 2 logs.

Conclusão: A possível interferência do HCV na evolução da infecção pelo HIV e na resposta ao tratamento anti-retroviral é compartilhada por alguns estudos, porém, existem controvérsias sobre a questão.

Palavras-chave: HIV/HCV/HBV, Aids, Hepatite B e C.

Abstract
The association of the HIV and the hepatitis B and C virus is commom in the studied region, considering the importance of the parenteral transmission through the use of injectable drugs. In the HIV associated HCV/HBV infection group, the average of age was 37 (17 and 52) years and the difference between masculine and feminine gender was significant (p< 0,05). The infection did not have significant difference between sanguineous and sexual transmission (p > 0,05). The association HIV/HCV was predominant, while 25% of the cases had infection marker for HBV. Analogous nucleosídeos (NRTI) and non analogous (NNRTI) has been used in 61,5%. Among the proteases inhibitors (PI), Nelfinavir it was more frequently used. Seventy eight percent (78%) was in anti-HIV treatment and 5,8% to HIV/HCV coinfection. Seventy seven percent (77%) of the HCV were genotype 1 and the others were genotype 3. The ALT range was 66-198 mg/dl in 41,2% of patients. The treatment produced on CD4 increase less than 25% and one viral load reduction near of 2 logs.

Conclusion: The possible interference of the HCV in coinfection HCV/HIV evolution and in the anti-retroviral treatment reply is shared by some studies,however, there are controversies about the question.

Key words: HIV/HCV/HBV; Aids; Hepatitis B and C.

Introdução
A infecção de vírus hepatotrópicos em associação com o HIV é freqüentemente encontrada, estando ligada com a forma comum de transmissão que estes vírus compartilham(1).

O vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) emergiu no Ocidente na década de 80, disseminando-se através da via parenteral e pela exposição sexual. Atualmente, a epidemia combina um aumento da sobrevida resultante da terapia anti-retroviral altamente ativa (HAART), com o surgimento de novos casos, sendo estimado que nos EUA a infecção chegue a um número próximo de 1 milhão de pessoas. Dados do Centro de Controle de Doenças CDC(2) admitem que somente 50% destes infectados têm conhecimento de sua situação.

O vírus da hepatite C (HCV) se dissemina principalmente através da exposição parenteral, existindo uma variação da sua prevalência nas populações estudadas(3-7). O HBV tem transmissão sexual predominante e o aumento de sua prevalência está diretamente relacionado com a elevação da idade. O vírus HIV infecta indivíduos e se espalha por todas as regiões do mundo, com destaque para os índices encontrados em populações do continente africano, em especial da região subsaariana(8).

A hepatopatia produzida pelo HCV é a principal causa de morte nos EUA entre infectados pelo HIV(9). O risco de Infecção pelo HIV por exposição sexual não aumenta com a co-infecção pelo HCV(10). Na co-infecção com o HBV, a prevalência do HIV variou entre 10 e 15%(11). Dados do Eurosida demonstraram o aumento significativo na mortalidade por doença hepática nos pacientes com infecção crônica pelo HBV e infectados pelo HIV. De acordo com estes achados, o HBV não interfere na evolução para Aids ou na resposta viral e imune à terapia HAART(12).

As estimativas para os EUA são que a co-infecção HCV/HIV esteja entre 15 e 30%, enquanto que entre os usuários de drogas injetáveis, estes valores chegam a 90%. Entre homens que fazem sexo com homens, os valores estariam entre 15 e 20%(13). No continente europeu, pelos dados do EuroSida, a co-infecção HIV/HCV foi de 33%(14).

Em São Paulo (Brasil), entre 1.457 pacientes HIV positivo, 17,7% eram também positivos para o HCV(15).

A região noroeste do Estado de São Paulo e o Mato Grosso do Sul têm características epidemiológicas com algumas semelhanças, especialmente no que diz respeito à transmissão do HIV pelo uso de drogas injetáveis.

Campo Grande e Bauru ocupam a 22a e 34a posição entre os municípios com maior número de casos de Aids, notificados no período 1980-2004, respectivamente. A incidência foi de 30,4 e 45,3/100.000 habitantes no período 1993-2003, respectivamente(16).

A cidade de Bauru está localizada na região central do Estado de São Paulo a 352 km da cidade de São Paulo, com uma população superior a 300 mil habitantes, sendo sede da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que liga ambos os Estados e atinge a fronteira com a Bolívia.

Campo Grande é a capital do Estado de Mato Grosso do Sul, possui uma população superior a 650 mil habitantes. Está situada próxima à fronteira do Paraguai e Bolívia, países com os quais mantém intercâmbio comercial e cultural.

O presente trabalho objetiva analisar preliminarmente alguns aspectos relativos à associação do HIV com as hepatites virais B e C, nos serviços médicos já citados.

Metodologia
Trata-se de um estudo de casos, onde foram revisados 35 prontuários de pacientes com associação HIV e hepatites virais B e C em acompanhamento ambulatorial. Quatorze prontuários analisados pertencem ao setor de Moléstias Infecciosas da Secretaria de Higiene e Saúde de Bauru (SP) e 21 ao Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Foi estabelecida uma ficha padrão para a coleta de informações e que constava de dados demográficos, forma de aquisição, número de anos de diagnóstico, quantificação de linfócitos CD4, carga viral, medicação anti-retroviral utilizada, determinação da alanina aminotransferase (ALT). Para determinar a associação estatística entre variáveis foi utilizado o teste de Qui-quadrado e as diferenças foram consideradas significativas ao nível de p < 0,05.

Resultados
Foi observada uma predominância do gênero masculino na associação do HIV com as hepatites B e C. A idade média do grupo foi de 37 anos e o tempo de diagnóstico, em média, foi de 4 anos. A variação da contagem das células CD4 após início do tratamento foi menor que 25%, enquanto a queda na carga viral foi próxima de 2 logs., tomando como referência as medianas de antes e após o tratamento. O esquema terapêutico predominante foi a associação de 2 análogos nucleosí-deos (NRTI), mais um não-análogo (NNRTI). Em menor proporção foi utilizado o esquema 2NRTI mais um inibidor da protease (IP). Em 25,7% dos casos foram encontrados marcadores de infecção pelo HBV (HBsAg/anti-HBc). A presença do anti-HCV associado ao HIV foi de 97,1%, ocorrendo a predominância do genótipo 1 em valores acima de 75%. Mais de 40% (41,2%) dos casos tiveram ALT elevada, variando entre 66 e 198 mg/dl. Tabelas 1, 2 e 3.







Discussão
A associação entre os vírus das hepatites B e C com o HIV se constitui em mais um desafio para o clínico que os assiste. A disponibilidade de tratamentos mais efetivos para ambas as enfermidades estimula e desfia o infectologista a cada vez mais conhecer a questão.

Na nossa casuística, os resultados encontrados indicam uma diferença significativa da infecção entre homens e mulheres (p<0,05), com predomínio do gênero masculino, sendo uma característica concordante com estudos já realizados no Brasil(17,18).

Identificou-se que na aquisição do HIV predominou a exposição sexual; porém, a transmissão parenteral foi expressiva, não havendo diferença estatisticamente significativa entre ambas (p>0,05).

Setenta e sete por cento (77%) dos co-infectados HIV/HCV eram genótipo 1 e os demais eram do tipo 3. Esta distribuição com predomínio do genótipo 1 é a mais freqüentemente encontrada no Brasil(19).

Durante o tratamento, o aumento do CD4 foi em média inferior a 25%, denotando uma resposta imune aquém da esperada, enquanto a carga viral teve uma queda próxima de 2 logs.

Na co-infecção HCV/HIV foi observado por alguns autores que a resposta à terapia HAART sofre influência do HCV, com resultados inferiores, sobretudo da contagem de células CD4, quando comparados com o que ocorre nos pacientes sem co-infecção(20,21). Na visão de alguns, o HCV teria um comportamento de infecção oportunística(22). Apesar destas evidências, não há concordância entre os pesquisadores sobre possível impacto do HCV na evolução da doença pelo HIV(23,24).

No grupo analisado, 78,8% dos pacientes estavam em tratamento anti-retroviral e em 5,8% dos casos o tratamento foi concomitante para HCV. Quando do diagnóstico, 41,2% dos pacientes apresentavam níveis da ALT que variavam entre 65 a 198 mg/dL. Na casuística de Mendes-Corrêa, relativa a pacientes atendidos na cidade de São Paulo (BR), 89,2% apresentavam níveis de ALT muito elevados(15).

Os esquemas de tratamento se basearam na associação análogo (NRTI) e não-análogo nucleosídeo (NNRTI) ou associação com inibidores de protease (IP), seguindo as recomendações do Consenso Brasileiro vigente e que foram recentemente modificadas.

Em conclusão, nesta avaliação preliminar, nossos resultados demonstram que a resposta de CD4 foi aquém do desejável e a queda da carga viral esteve próxima de 2 logs, quando comparadas pelas medianas. Estes achados encontram respaldo na literatura, mas existem controvérsias quanto a esta possível influência do HCV no curso da infecção pelo HIV.

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