As eternas doenças tropicais
Realizou-se recentemente em Campos do Jordão, uma bela cidade serrana do Estado de São Paulo, mais um congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, a principal sociedade médica brasileira envolvida com as doenças tropicais.
Na programação científica, muito destaque para estas doenças - principalmente a doença de Chagas, as leishmanioses e a malária, patologias extremamente relacionadas com a existência de pobreza - além, naturalmente, de valorizar outras que atingem também habitantes de países ditos de Primeiro Mundo, como tuberculose, Aids, hepatites B e C.
Uma mesa-redonda, sobre doença de Chagas, chamou-me a atenção: um palestrante, representando a DNDi(2), referiu que entre 1975 e 2004 foram comercializados 1.556 novos compostos químicos, sendo apenas 20 (vinte!) os destinados ao tratamento das doenças tropicais.
Fui à internet para checar aquele dado e acabei achando a comprovação daquela aberração estatística. Encontrei referência(1) de dado semelhante: entre 1975 e 1999 foram comercializados 1.233 princípios ativos, sendo apenas 13 (treze!) os destinados ao tratamento de doenças tropicais.
Afinal, a maioria dos países deste mundo é emergente (ou em desenvolvimento, como queiram) e a maior parcela da população mundial habita esses países. Portanto, população pobre e países pobres são maioria neste planeta. No entanto, apenas um ínfimo número de medicamentos (1% a 1,3% do total) são descobertos e disponibilizados para pacientes com essas doenças, nesses países.
Será que essas doenças já estão devidamente “protegidas” com os medicamentos atuais? Vejamos a leishmaniose visceral: a droga de escolha, um antimonial pentavalente, tem grande toxicidade potencial, é de uso parenteral, exige internação em torno de um mês para o tratamento e a resistência à droga vem sendo crescente. Vamos às alternativas? Anfotericina B, outra droga de uso parenteral, com grande potencial tóxico e que, igualmente, exige internação.
Vejamos outra, a doença de Chagas: a droga de escolha, benzonidazol, exige tratamento durante um a dois meses, tem enorme potencial de efeitos adversos e não é eficaz na fase crônica da doença, onde situa-se a quase totalidade dos pacientes.
Vamos à malária: aqui, a situação é um pouco melhor, pois existem muitos medicamentos disponíveis; contudo, a resistência é crescente (um grande problema na atualidade, a malária MDR), tornando indispensável a obtenção de medicamentos definitivos ou, pelo menos, a comercialização de combinações fixas de medicamentos, situação atualmente deficiente.
E a tuberculose, então? Considerada uma das três principais doenças do momento (tuberculose, Aids e malária), necessita de três medicamentos, durante seis meses, todos com significativa toxicidade potencial: o medicamento mais novo, a rifampicina, foi introduzido há mais de 30 anos. Será que as pesquisas não obtêm nenhum progresso ou o que falta são pesquisas?
Corroborando essa matemática preconceituosa contra os pobres (populações e países), outro dado: menos de 4% do financiamento global para pesquisa é dedicado aos distúrbios transmissíveis, neonatais e nutricionais, que constituem a principal carga de doença nos países em desenvolvimento”(1).
Outra matemática odiosa é aquela em que o país (EUA) destinou verbas para a guerra (?) do Iraque: 100 bilhões em 2006 e 170 bilhões de dólares em 2007, dinheiro que daria, com muita sobra, para neutralizar toda essa problemática de doenças tropicais em todos os pacientes de todos os países.
Nessa minha viagem pela internet notei, pelo menos, alguns valores positivos, que preciso destacar para melhorar meu humor sobre este tema: o projeto dos Médicos Sem Fronteira (atuante em 70 países e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1999), o DNDi (Drugs for Negleced Diseases iniciative) e uma publicação conjunta da OMS/Banco Mundial, Priorities in Health, de Jamison DT et al., publicada em 2006, em parte financiada pela fundação Bill Gates.
Referências
1. Jamison DT et al. Priorities in Health, OMS/Banco Mundial, 2006. Internet www.worldbank.org.
2. Drugs for Negleced Diseases iniciative (DNDi). Internet www.dndi.org.
3. Médicos Sem Fronteira. Internet www.msf.org.br/mundo/
Prof. Dr. Hélio Vasconcellos Lopes
Professor Titular da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC. Chefe da Enfermaria de Doenças Infecciosas do Hospital Mario Covas.
|