Hélio Vasconcellos Lopes
Professor Titular da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC. Chefe da Enfermaria de Doenças Infecciosas do Hospital Mário Covas.
Rev Panam Infectol 2006;8(1):48-49
Recibido el 20/2/2006.
Aceptado para publicación el 10/3/2006.
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A indústria farmacêutica está reduzindo substancialmente suas pesquisas para a obtenção de novos antibióticos. Por que acontece isto? E no que esta atitude resultará?
Ora, é evidente que os regimes políticos de nosso mundo apontam para a direção do lucro, sendo os EUA o maior exemplo. Ninguém, em sã consciência, empreenderá uma atividade que pelo menos potencialmente não lhe possibilite vantagens, lucros, dividendos.
E o que está acontecendo com a indústria farmacêutica é que drogas indicadas para outras patologias, que não as infecciosas, vêm proporcionando mais lucro e com maior segurança do que o obtido com os agentes antimicrobianos.
Antibióticos são habitualmente prescritos apenas por alguns dias, em contraste com drogas para doenças crônicas, usadas indefinidamente, como aquelas indicadas para hipertensão, insuficiência cardíaca, retenção hídrica, profilaxia de convulsão, diabetes e muitas outras, aqui se incluindo os modernos medicamentos para disfunção erétil.
A isto se acrescente que antibióticos podem rapidamente perder sua eficiência, devido à freqüente emergência de resistência bacteriana; podem sofrer os efeitos das novas propostas científicas, tais como o surgimento de inúmeros “guidelines”, o aperfeiçoamento nos critérios diagnósticos e o encurtamento da duração de tratamento, o que tem resultado em uma redução na prescrição de antibióticos.
Pelos motivos expostos, a maioria das companhias farmacêuticas multinacionais tem fechado ou pelo menos reduzido substancialmente suas pesquisas para a obtenção de novos antibióticos; diversas pesquisas em andamento com novos antimicrobianos, em fases II e III, têm sido interrompidas pela falta de segurança do laboratório com relação ao potencial promissor destas drogas.
Apenas em minha experiência, atuei nos últimos cinco anos como investigador principal em dois protocolos de fase III, com dois antimicrobianos promissores (garenoxacino e oritavancino) que, no entanto, tiveram sua linha de pesquisa interrompida por seus respectivos laboratórios; após uma interrupção de dois ou três anos, ambos estão retornando, após terem sido adquiridos por outros laboratórios.
Vejamos o tema sob outro prisma: a Inglaterra(1) reduziu em cerca de 50% a prescrição de antibióticos em pediatria, a partir de 1997; substanciais reduções também têm sido constatadas na Suécia(2). Inúmeras publicações têm focado a falta de evidência da atividade de antibióticos usados no tratamento de infecções do trato respiratório. Um artigo, por exemplo(3), refere textualmente: “não há evidência de que antibióticos encurtem a duração dos sintomas na maioria dos casos de resfriado comum, otite média aguda, tonsilite, sinusite e bronquite aguda”.
Na Bélgica e na Holanda(4) estima-se que somente metade das prescrições de antibióticos tenha um apropriado papel terapêutico.
Genericamente, há uma forte pressão no sentido de se reduzir a prescrição de antibióticos em infecções do trato respiratório, freqüentemente de etiologia viral e/ou auto-resolutivas.
O uso desnecessário de antimicrobianos está fortemente associado com a ocorrência de efeitos adversos (alguns graves), com custos desnecessários e com resistência crescente.
Outro foco do problema reside nas leis que regem o licenciamento de drogas: leis de patente e leis que oneram a liberação destes agentes.
Fica a pergunta: o que temos de novo, nos últimos anos, falando-se de antibióticos?
Muito pouca coisa. E como estaremos dentro de 10 a 15 anos? O que pode ser feito?
Uma possibilidade é a participação do Estado (dos países ricos, bem entendido), fazendo parcerias com os laboratórios, através de estímulos financeiros para o desenvolvimento de novas pesquisas. Outra, é uma reavaliação nas leis de patente e uma redução das onerosas e prolongadas exigências legais para o licenciamento de novos antibióticos, com a finalidade de tornar mais atrativa esta área de pesquisa.
Caso contrário, apenas a exigência de novos antibióticos, documentada pelo desequilíbrio na relação antibiótico x microrganismos, daqui a um número de anos não previsível, poderá ser o novo fator estimulador.
Referências
1. Sharland M, Kendall H, Yeates D et al. Antibiotic prescribing in general practice and hospital admissions for peritonsillar abscess, mastoiditis, and rheumatic fever in children: time trend analysis. BMJ 2005;331:328-329.
2. Swedish Strategic Programme for the Rational Use of antimicrobial Agents and Surveillance of Resistance. Annual Report 2004 (http://soapimg.icecube.snowfall.se/strama/Arsrapport%20… (accessed 19 Dec, 2005).
3. Arroll B, Kenealy T. Antibiotics for the common cold. In: a The Cochrane Library, Issue 4. Oxford. Apdate Software, 2000.
4. 2. Coenen S et al. Variation in European antibiotic use. Lancet 2001:358:1272.
5. Norrby R et al. Lack of development of new antimicrobial drugs: a potencial serious threat to public health. Lancet Infec Dis 2005;5:115-119.
6. Wise R. The drugs industry and the need for new antimicrobials. Lancet 2006;367:27.
Correspondência:
Dr. Hélio Vasconcellos Lopes
Av. Brigadeiro Luís Antonio, 4.178
CEP 01402-002 - São Paulo - SP - Brasil.
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